Noutro dia sentei-me (estava de pé) - podia estar deitado -, sentei-me e
pensei. Pensei na chuva, nas rosas murchas e nos beijos vermelhos
perdidos. Disparei na direcção contrária e fiz da minha escolha
arbitrária. Fui do contra, sempre fui, sempre sou (às vezes
inconveniente). Mas é assim, um velho sentado no sofá, na poltrona, a
olhar pela janela. Já conquistei o mundo. Agora sonho, sentado na
poltrona, pregado à parede. Sacrifiquei-me pelos meus pares, fui
sacrificado pelos meus pares. Nada me deram em troca - também não lhes
dei grande coisa eu próprio. Que havia de dar? Não tenho nada e mesmo
que tivesse, não tinha.
Disse noutro dia ao Mário que nada disto fazia
sentido, que era absurdo e ridículo. Ele não fez caso, disse-me para
beber mais um copo. Assim fiz. As tardes agora são longas, não voltámos a
falar sobre isso.
Os carros passam em frente de mim e fazem barulho ao
percorrer o asfalto molhado. Cheira a Inverno. Aqui em Amesterdão as
tardes de Inverno estão envoltas num marasmo quase inexplicável. E
depois as dialécticas no jardim. As conversas à sombra do choupo. (Não
falamos de nada, a verdade é essa, mas é agradável.)
Eu até nem me
importo (muito) de ser ignorante - toda a gente tem as suas limitações.
A
minha mãe gostava que eu tivesse sido médico, uma profissão a sério,
daquelas que dão dinheiro e tudo!, mas sou poeta. Será que sou? Sei que o
dinheiro mal me chega para as despesas, por isso, se não sou, ao menos
já estou mais perto. Mas não interessa, ser poeta nem sempre é escrever.
Aliás, é, na maior parte das vezes, pensar. Viajar com a mente e
sonhar. (Por vezes até é ser médico, talvez até ter uma profissão a
sério. Mas tudo isto apenas com a mente, a sonhar, claro.)
A vida em Lisboa é calma, feita
de tertúlias com amigos, de bicas na esplanada... A casa é pequena mas
dá para mim, vivo sozinho e desarrumado, gosto assim.
Uma vez fui a Barcelona, trabalhava num bar, e, por vezes, até tinha
amigos. Outra vez estive num templo no Tibete, a vida, toda ela, era
calma e serenidade, elevação e sabedoria. Mas isso foram outras vidas
que nunca existiram, ou se existiram, não me lembro. A minha cabeça já
não é como era no antes. Do antes lembro-me cada vez menos.
A morte não é boa nem má, nem poderia ser qualquer uma das coisas, pelo
menos para quem morre. Mas a verdade é que gostava de ter mais tempo.
Não sei para quê, essa é a verdade, mas gostava. Pronto, depois não há
nada. É difícil, ou impossível - pelos menos quase - imaginar a
não-existência. É estranho ser e pensar no oposto.
Bem, mas nada disto servirá do que quer que seja depois da morte. Quem
sou eu para discutir este tipo de assuntos? Sou apenas um poeta, não
tenho esse direito, mas a verdade é que algumas imprudências são permitidas a um velho.
Claro que a morte é má, ou não, e mesmo que o seja é-o apenas de maneira
negativa, por oposição ao que havia antes. E quando a senhora chega,
todas estas preocupações desaparecem.
Nem Lisboa, nem Amesterdão, nem Barcelona nem Tibete. Talvez até, nem eu.
É isto, estou cansado e não tenho paciência para nada, estou velho (acho
que é isso que os velhos fazem). O mundo não foi feito para pensadores.
Os ignorantes conseguem ser muito mais felizes. Mas de que vale isso, a
"Felicidade"? Toda ela de sorriso estampado no rosto e toda
bem-disposta a cumprimentar as pessoas pela manhã.
- Olá!
- Bom dia Felicidade. Como está?
- Feliz! (Ora pois.)
E é sempre assim, sempre isto. Nuns dias aparece para me cumprimentar,
noutros nem por isso. Será que sinto mesmo falta dela? Será que existe
ou que tenho sonhado nuns dias mais do que em outros? (A verdade é que
ela sempre me pareceu demasiado feliz, a Felicidade. E sendo eu um
céptico, talvez deva desconfiar...)
Mas as folhas do Outono já caem, molhadas, no chão. Castanhas,
amareladas, com aquelas cores de folha no Outono. E o jardim está vazio. Em frente ao velho edifício de pedra não há ninguém. Será que sou
realmente velho? Tenho barba branca, estou cansado, já vivi uns quantos
anos, muitos anos, que na verdade são poucos - pelo menos para mim. Mas
será que sou velho? Posso estar apenas a ter uma crise de fatalidade.
Não sei, adormeci no banco do jardim. O sol primaveril aquece-me o
rosto. Vou para casa.