segunda-feira, 28 de outubro de 2013



drogávamo-nos sempre em quartos escuros. divisões fechadas. contíguas à loucura. siamesas à esquizofrenia. ao histerismo ontológico. em quartos escuros. iluminados por candeias vazias. tingíamos a alma de verde baço. como o azeite-luz fosca. de meia vida. de meio dia. a meia face. pintávamos sem as caras da morte. em telas brancas. de paz. mascarrávamos tudo de suor. negro. velho. de suor podre. tribalismo. caras brancas de pó. pintadas com crus pigmentos de osso. em todas as esquinas. deambulávamos por metrópoles vazias. à noite. incendiávamos o céu. fogo azul. de alquimias metafísicas. tempo. espaço. ilusões da mente. em bonitos postais. pintados à mão. memórias de passados que não existiram. que estão para existir. em qualquer uma das esquinas da metrópole. entre caras pálidas. e pigmentos de osso. a salvação da alma no prazer da carne. hedonismo divino. de contornos sujos. e quem não precisa de um pastor? quem não precisa de sentir o peso do cajado nas escarificadas e nuas costas de outros tempos? tempos que são o mesmo. onde o cajado nunca vai. apenas volta. corroendo sempre a mesma alma. sempre a mesma ferida. pressionando sempre o mesmo ponto. o sangue escorre. partindo do centro para as extremidades. e a vida escorre. partindo o centro. correndo sempre para a extremidade.


/debaixo de água somos todos puros. debaixo de água todas as almas são limpas. e a água escorre. para a extremidade. como o sangue. como o tempo. sangrando a vida./

segunda-feira, 14 de outubro de 2013



e não foram poucas as vezes em que, sentados numa fogueira, dominámos o mundo. sujos de ideias ainda mais sujas. amámo-nos em grupos. selvagens. primitivos. as noites vinham em tumultos. ardentes de tochas. as pessoas saíam à rua e nada sabiam da vida. saíam como nós amámos. em grupos. um mar de sebo. onde se afundam ideias de liberdade. era assim noite dentro. com tochas. incendiando a cidade.  
dançávamos em quartos barrocos. de roupa interior. branca. cândida. tingida de inocência pueril. em volta do fogo químico. que ardia mais em nós que no quarto. fogo de poesia. antologias completas. livros mortos. cheios de poesia morta. dançávamos. solstícios da anima. pequenas mortes vãs em cada novo segundo. punhais psicadélicos. pautas neoclássicas projectadas contra todas as paredes.
morremos sem nunca sair do quarto. o barroco. sentados em cima da fogueira. sujos de ideais. imolámos os livros. inalámos poesia por todos os poros. exalámos morte. apenas morte.


/somo-nos em pedaços grosseiros de carne crua. em sangue. sangue existencial. nojento. inexistente./

quinta-feira, 26 de setembro de 2013



tudo é falso. e nós olhamos um para o outro. que mais fazer? frente a frente. e tudo é falso. lá fora tudo é falso. e nós consumimo-nos em beijos. vai. vem. vai. vem. lá fora tudo é vão. vai. vem. vai. vem. vai. vem. e se te vais… oh, porque não te vens? fica mais um pouco. para onde irias? lá fora tudo é falso. para onde irias? escorrem as melancias de sangue vermelho. e tu estás madura por dentro. doce. podre. hummm… e como é bom o baloiço. vai. vem. vai. vem. vai. vem. hummm… e como são boas essas cascatas fel. chove por toda a parte. eu chovo-te em cima. tu nasces. fluis para mim. tudo o que de mim há. existe. é. existiu. foi. e tu foste também. fluíste. fluis. e fluis… fluis… fluis… enveneno-te uma vez. duas. três. e tu vais morrendo. enveneno-te outra vez. morrendo para mim. fluindo. fluindo para a foz. o quarto ilumina-se. fluorescente. a divisão exala algo. tribal. primário. implode. eu expludo. e toda a metafísica. toda a física em cada meta. estilhaça na tua direcção. soluças incontrolavelmente. o teu choro - flecha pelo quarto.  fica tarde – flecha pelo espaço. cuidado! inflexão robusta. amor de rosas em soda cáustica. amor-veneno na veia. e tu olhas pelo canto do olho. e eu respiro. zás! em cheio no olho! perfume de rosas. adocicado e podre. adocicado. podre. e são assim os dias em que vais. os dias em que vens.

/vai. vem. vai. vem. vai vem./

quarta-feira, 5 de junho de 2013





olhando o espelho na sala de cortinados veludo carmim. tu estás na cama. por baixo do espelho - como sempre estiveste. vejo-te dentro do espelho. numa outra dimensão de mim. nua. as janelas alcançam toda a fachada casca de kiwi. há algo de tropical no quarto. lá fora. uma selva estende-se em toda a extenuante extensão - não da paisagem - do quarto, da paisagem do espelho. vejo as rugas nojentas que brilham em vibrante ondulação gordurenta. tenho a barba demasiado grande. maltratada como um jardim esquecido. seco. abandonado. entregue à natureza. à do homem. não muito diferente da seara mal plantada - e francamente seca - entre as tuas pernas. estou despido da cintura para cima. a carne em gomos de pêssego doce. pêssego maduro. existe algo de tropical no ar mercúrio que nos rodeia. está calor e os teus poros de sereia expulsam todo o podre amadurecimento feminino. é nojento. é sexual e mesmerizante. toda a tua pele amadurecida em casca de carvalho clama pela perigosamente venenosa língua do poeta narciso. mas agora não posso, estou a hipnotizar o espelho. ou ele a mim. qual deles sou eu? o de lá... o de cá... o de lá. o observador mais distraído poderia pensar que sou os dois. mas não se pode ser os dois. apenas um. no entanto ali estão dois. sinto o chão em sangue com os pés descalços. é quente - talvez revigorante. o chão é sangue porque eu o piso. eu sou eu porque piso o sangue. tal como o espelho. somos os dois um. não são dois. são um. o quarto todo escorre para o chão. para o espelho. para mim. do meu espelho consigo ver o mundo. está húmido (o ar). está calor. é nojento. como suor na pele de um velho. um velho porco que se esfrega em crianças. é o padre da paróquia . está apenas a mostrar-lhes os desígnios de um senhor. transpiro em bica. vejo o suor escorrer-me espelho abaixo. toca um jazz obsceno de fundo. oriental. com um toque de Bali. as flautas fazem-me estremecer. e o corpo vibra na espuma das ondas. das ondas do mar de sangue. imóvel. fito o espelho. fito-me. sou eu? continuas na cama. alheia a tudo o que se passa no espelho. como podes estar alheia ao que se passa no espelho? dormes. dormes no teu sono de infante. regressão completa à pudicícia infância. toda tu cândida. e eu no espelho. preso no espelho. estamos numa casa senhorial branca. no meio da selva. daquelas. coloniais. é branca. contrasta com os secos da selva. é branca. também tu és branca. mas só por dentro. pele exótica. da selva. não da casa branca. da selva. pantera negra. ardilosa. esguia. esbelta. porte predatorial. predatório. pré datório. estás suspensa na cama. o tempo escorre por baixo. com o sangue. todo o tempo é sangue. todo o sangue é tempo. e escorre. escorre... escorre... escorre...



/do meu espelho consigo ver o mundo./