segunda-feira, 18 de novembro de 2013



matemo-nos todos. pelo menos até amanhã. pelo menos até a casa se fechar sobre nós. pelo menos até a casa se fechar em nós. matemo-nos. matemo-nos aos poucos. no casulo. a floresta ressoa em uníssono. ecos vãos. de desespero. de loucura falante e cinética. a dor de viver dentro de si próprio. abraçando as paredes brancas. pintadas de branco gutural. de silêncio. o sopro da existência. o frio que entra por debaixo da porta. a infindável solidão em todos os espaços do tempo. em todos os tempos do espaço. o som do acordeão. ranger de dentes. deserto frio. coberto de noite. rajadas ininterruptas. não há esperança de conforto ou calor. mesmo em qualquer outro ponto. por mais longínquo ou próximo que seja. o torpor seco da alma. o marasmo áspero da existência. o horizonte imensurável. esmagador.

/humm... e o que eu daria por um dia no mar... o que eu daria por um dia na costa... onde o mar encontra a terra e o Homem cessa de voar./

segunda-feira, 28 de outubro de 2013



drogávamo-nos sempre em quartos escuros. divisões fechadas. contíguas à loucura. siamesas à esquizofrenia. ao histerismo ontológico. em quartos escuros. iluminados por candeias vazias. tingíamos a alma de verde baço. como o azeite-luz fosca. de meia vida. de meio dia. a meia face. pintávamos sem as caras da morte. em telas brancas. de paz. mascarrávamos tudo de suor. negro. velho. de suor podre. tribalismo. caras brancas de pó. pintadas com crus pigmentos de osso. em todas as esquinas. deambulávamos por metrópoles vazias. à noite. incendiávamos o céu. fogo azul. de alquimias metafísicas. tempo. espaço. ilusões da mente. em bonitos postais. pintados à mão. memórias de passados que não existiram. que estão para existir. em qualquer uma das esquinas da metrópole. entre caras pálidas. e pigmentos de osso. a salvação da alma no prazer da carne. hedonismo divino. de contornos sujos. e quem não precisa de um pastor? quem não precisa de sentir o peso do cajado nas escarificadas e nuas costas de outros tempos? tempos que são o mesmo. onde o cajado nunca vai. apenas volta. corroendo sempre a mesma alma. sempre a mesma ferida. pressionando sempre o mesmo ponto. o sangue escorre. partindo do centro para as extremidades. e a vida escorre. partindo o centro. correndo sempre para a extremidade.


/debaixo de água somos todos puros. debaixo de água todas as almas são limpas. e a água escorre. para a extremidade. como o sangue. como o tempo. sangrando a vida./

segunda-feira, 14 de outubro de 2013



e não foram poucas as vezes em que, sentados numa fogueira, dominámos o mundo. sujos de ideias ainda mais sujas. amámo-nos em grupos. selvagens. primitivos. as noites vinham em tumultos. ardentes de tochas. as pessoas saíam à rua e nada sabiam da vida. saíam como nós amámos. em grupos. um mar de sebo. onde se afundam ideias de liberdade. era assim noite dentro. com tochas. incendiando a cidade.  
dançávamos em quartos barrocos. de roupa interior. branca. cândida. tingida de inocência pueril. em volta do fogo químico. que ardia mais em nós que no quarto. fogo de poesia. antologias completas. livros mortos. cheios de poesia morta. dançávamos. solstícios da anima. pequenas mortes vãs em cada novo segundo. punhais psicadélicos. pautas neoclássicas projectadas contra todas as paredes.
morremos sem nunca sair do quarto. o barroco. sentados em cima da fogueira. sujos de ideais. imolámos os livros. inalámos poesia por todos os poros. exalámos morte. apenas morte.


/somo-nos em pedaços grosseiros de carne crua. em sangue. sangue existencial. nojento. inexistente./

quinta-feira, 26 de setembro de 2013



tudo é falso. e nós olhamos um para o outro. que mais fazer? frente a frente. e tudo é falso. lá fora tudo é falso. e nós consumimo-nos em beijos. vai. vem. vai. vem. lá fora tudo é vão. vai. vem. vai. vem. vai. vem. e se te vais… oh, porque não te vens? fica mais um pouco. para onde irias? lá fora tudo é falso. para onde irias? escorrem as melancias de sangue vermelho. e tu estás madura por dentro. doce. podre. hummm… e como é bom o baloiço. vai. vem. vai. vem. vai. vem. hummm… e como são boas essas cascatas fel. chove por toda a parte. eu chovo-te em cima. tu nasces. fluis para mim. tudo o que de mim há. existe. é. existiu. foi. e tu foste também. fluíste. fluis. e fluis… fluis… fluis… enveneno-te uma vez. duas. três. e tu vais morrendo. enveneno-te outra vez. morrendo para mim. fluindo. fluindo para a foz. o quarto ilumina-se. fluorescente. a divisão exala algo. tribal. primário. implode. eu expludo. e toda a metafísica. toda a física em cada meta. estilhaça na tua direcção. soluças incontrolavelmente. o teu choro - flecha pelo quarto.  fica tarde – flecha pelo espaço. cuidado! inflexão robusta. amor de rosas em soda cáustica. amor-veneno na veia. e tu olhas pelo canto do olho. e eu respiro. zás! em cheio no olho! perfume de rosas. adocicado e podre. adocicado. podre. e são assim os dias em que vais. os dias em que vens.

/vai. vem. vai. vem. vai vem./