terça-feira, 28 de agosto de 2012
Primavera eterna,
O desabrochar em gomos.
Gomos de jovialidade, de amor.
Estamos no topo.
No topo do monte,
Da vida,
No pico da alma.
O carborar dos corpos,
A imolação das almas,
As cinzas da vergonha,
Encharcadas em sexo.
E o sexo banha tudo,
E tudo é banhado por sexo.
Banho-me em ti, nado,
Afogo-me no teu sexo.
A vida emana dos entes.
Entes jovens,
Entes puros,
Entes eternos.
Somos o agora,
O agora no amanhã.
A vida neste segundo,
O infinito no momento.
O pecado.
O pecado original,
Em forma de sorriso.
O ventre de uma mulher.
Um jogo a dois,
Uma competição lasciva.
Hedonismo, e boémia,
Liberdade e paixão.
Somos um tango,
Um tango escaldante e apaixonado,
Um tango eterno.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Mentiste que não me amavas mais,
como se fosse possível deixar de amar alguém. Fingiste que não me reconhecias,
como se os traços do meu rosto se apagassem do teu. Chamei-te pelo nome. Não
olhaste, como se a música da minha voz não te tivesse embalado tantas noites.
As minhas palavras foram-te estranhas, como se fosse possível não saberes cada
verso dos meus poemas. Desviaste o olhar do meu e procuraste as pedras da
calçada, como se o teu infinito não tivesse neles habitado.Foste embora e não olhaste para trás. Foste embora e não quiseste olhar para trás.
(Olhei-te nos olhos depois de ter
estado dentro de ti. Fizemos sexo outra vez, sexo fortuito, fugaz, proibido.
Amamo-nos durante horas, voltamos a habitar a alma, o corpo um do outro. Um só, mais uma vez.)
Se te amo? Não sejas tonta, sabes bem que sim. És tudo o que quero, mas o meu tesouro a outro dono pertence. Não, não me esqueci de ti nunca. Sim, também tenho saudades tuas. Também eu devo vassalagem a outrem, tal como tu. Pois, mas são os caminhos que escolhemos. São os caminhos que escolheste. Pois, agora é tarde. Adeus.
Mentiste que não me amavas mais,
como se fosse possível deixar de amar alguém. Fingiste que não me reconhecias,
como se os traços do meu rosto se apagassem do teu. Chamei-te pelo nome. Não
olhaste, como se a música da minha voz não te tivesse embalado tantas noites.
As minhas palavras foram-te estranhas, como se fosse possível não saberes cada
verso dos meus poemas. Desviaste o olhar do meu e procuraste as pedras da
calçada, como se o teu infinito não tivesse neles habitado. Foste embora e não olhaste para trás. Foste embora e não quiseste olhar para trás.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
E de rompante o som metálico do isqueiro de marca Zippo a abrir. E floresce uma chama na noite, uma chama que incendeia o pano branco liberdade que pende da garrafa. Apesar de não ser barman aquele homem segura um cocktail na mão. Molotov é o seu nome. Pode ser mais inebriante que qualquer outra bebida de teor alcoólico, excitar mais multidões que qualquer chuva de cerveja.
E assim, de súbito o objecto com nome de bebida - mas decerto desaconselhável para ingestão - percorre os ares do Rossio e sibila em direcção ao seu alvo, reclamando por menos impostos, reclamando por mais pão para a boca dos pobres, reclamando por uma vida mais justa, ou não reclamando por nada.
Ricardo encontra-se entrincheirado por detrás do muro de escudos daquele plástico duro - ao qual os mais pretensiosos se referem como "policarbonato" -, o equipamento de protecção pesado fá-lo suar e a viseira do capacete turva-lhe a visão.
Ricardo, de olhar perdido e totalmente alheio ao que se passa na Praça D. Pedro IV, relembra aquele dia quente de Verão em que atrás do velho celeiro encontrou um homem crivado de balas.
O Sol ia já bem alto, quando Ricardo, 11 anos, cabelo loiro, olhos azuis, jardineiras rasgadas nos joelhos, t-shirt vermelha e boné coçado, saiu de casa para ir ter com o Pedro, um miúdo franzino e com um ar - considerariam alguns - um pouco tísico, lá da aldeia, com o qual mandava pedras aos ninhos das árvores e companheiro de tantos roubos de maçãs na banca do Senhor Joaquim. Maçãs, laranjas, pêras... Por alguma razão que o mesmo - e até eu, o próprio narrador - desconhecemos até à data, algo o impeliu a tomar o caminho que assomava perto da anciã azinheira, subindo o cabeço e passando pelo velho celeiro abandonado no vale, em vez do habitual caminho de terra batida, onde tantas vezes tinha esfolado os joelhos em tropelias ciclísticas com o mesmo Pedro cuja casa ficava no final da estrada, depois da casa da Rosalina e do velho Abílio.
Ao descer o vale, e aproximando-se daquele aglomerado de madeira que de tantas toneladas tinha sido albergue - mas que agora ameaçava ruir a qualquer momento fustigado pelas térmitas e outros os males que afectam a madeira -, sentiu um cheiro pútrido que lhe subia as narinas como se de um foguetão se tratasse, e que lhe bateu na cara tal qual soco de pedra.
Pedro, movido por um desejo mórbido de descortinar a proveniência daquele trovão olfactivo, e tal qual perdigueiro em buscar da presa, dirigiu-se para trás do velho e cansado barracão, para trás do celeiro, o celeiro da morte. E ali estava ele, um homem crivado de buracos de bala que tinham apenas competição à altura por parte das varejeiras que rapinavam a carne podre.
E ali estava ele, o "Cobras" como era conhecido pelos poucos que lhe distinguiam as feições, e cuja alcunha assentava que nem uma luva devido ao facto do "Cobras" ser mau como as mesmas, a meditar - mas pouco - olhando para o céu de olhos arregalados como se um dilúvio de proporções bíblicas fosse fazer chover algo ridiculamente inusitado, como projecteis de chumbo - a verdade é que as balas apareceram de algum lado, de onde ao certo, ninguém sabe. Estava morto. E bem morto por sinal, tão morto quanto possível.
Pedro fugiu a gritar entre choros e soluços, ao tropeção por entre as giestas e os cardos e o centeio selvagem perdido pelo trilho e ali deixou o Cobras de olhos arregalados e expressão surpresa - por esta não esperavas tu ó fuinha! Apanharam-te, não com as calças na mão, mas a correr pela vida e a ver se não te caía o chapéu de palha. (Mas aqui para nós. Quem é que se preocupa com um chapéu de palha enquanto é perseguido por um grupo de homens de aspecto duvidoso munidos de armas de fogo? Vá se lá entender...) -, sozinho e com o estúpido chapéu de palha caído ao seu lado. O revólver que tinha à cintura se de entalhes fosse munido, pareceria um reco-reco, tantas eram as vidas que já tinha ceifado.
Cobras era o que se pode chamar, um assistente da morte, um assassino por contrato. Cobras matava porque lhe pagavam, para ele era razão suficiente, ironicamente foi-o para os seus carrascos também...
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Amotinei-me, revoltei-me, saí à rua. Levava em mim um ódio bárbaro a tudo e a todos, ao instituído e ao inovador. Revoltei-me com o passado e com o futuro, e o meu presente tanto ardia em revolta. Tomado por esta vontade de subversão, por toda esta revolução interior. (Fosse lá saber-se porquê, mas tinha em mim esta cascata de sentimentos, esta que desembocava num mar revoltoso.) Saí, olhei para todo o lado com a fúria no olhar, tudo isto tinha de sofrer uma mudança, uma mudança profunda. A sociedade não voltaria a ser a mesma - pelo menos nos moldes em que a conhecemos. Andei, andei pelas ruas da cidade determinado, imutável, amotinado. Ia montar uma barricada de intelectualidade e atirar um pouco de bruta violência física para a fogueira também.
E assim, decidido e resoluto!...
Voltei para casa, o tempo não está para revoluções. Tenho a carteira vazia e ainda por cima as nuvens ameaçam chover-me em cima. Talvez noutro dia... Agora tenho preguiça.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Não sei quem quero ser. O poeta é parco nos vaticínios. É assim que deve ser. Ele não tem objectivos definidos, gostos vincados, interesses idiossincráticos... És nómada no pensamento, nómada nos amores, nómada nas acções, nos gestos, nos pensamentos. Nómada. Não vives em lugar definido e não queres amarras, não tens porto. Sois nau que navega à vista, que cruza os mares sem destino. São conquistadores, messias sem seguidores, são peregrinos eternos e etéreos. Somos deuses, somos o topo. São demónios, são o fundo. O futuro é vago em promessas, o mistério a descortinar, o enigma sem importância. És mais uma aranha no emaranhado da teia, desta grande teia. Os fios entrecruzam-se. Para que ponta me encaminho? Sou ermita, sou nómada, sou poeta, sou nau, sou conquistador, sou messias, sou peregrino, sou deus, sou demónio. Sou a aranha que arquitecta esta grande teia. Sou o criador, e ainda tenho o tinteiro bem cheio e a pena bem afiada.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
A cidade estava deserta. Nas ruas ouvia-se o silêncio mais puro, que sussurrava em todas as esquinas e por entre os edifícios. O sibilar da solidão propagava-se por toda a natureza morta que compunha a cidade, uma selva urbana de cinzentos, vermelhos e ocres. Tudo era puramente funcional, o racionalismo em forma arquitectónica. Grandes fachadas envidraçadas olhavam o silêncio de cima, contemplavam aquele vazio ridículo - diga-se com sinceridade que as grandes metrópoles sem ninguém teriam um aspecto despropositado e sobejamente ridículo. O Sol batia os muros de maneira enviesada, a obliquidade da luz dava uma certa beleza ao betão e transmitia uma serenidade de fim de tarde de Verão.
Ele acordou, desceu ao plano onde este aglomerado morto se encontrava e contemplou. Contemplou a vastidão do vácuo humano que se lhe apresentava. Parou durante uns segundos e ficou a perscrutar aquela cidade de aspecto tão modernista - vazia. Caminhou pelas ruas, subiu aos muros, inspeccionou as esquinas. Estava sozinho, tinha a certeza. Onde teria ido toda a gente? Que estranho fenómeno teria eclipsado todos aqueles entes? Cada movimento, cada respiração, cada passada ecoava por toda a eternidade de betão. Pensou que talvez se tratasse de um sonho. Tentou acordar. Não conseguiu. Estava genuinamente sozinho.
A solidão era agridoce e veiculava sentimentos mistos e contrastantes. Todo aquele vazio transmitia uma calma nunca antes sentida, aquele silêncio agradava-o, permitia-lhe ouvir os seus pensamentos com clareza, os seus sentidos pareciam mais aguçados... Mas também era fria. E toda a gente sabe que nós - raça humana - gostamos de calor.
Deitou-se no cimento morno e olhou para o céu onde o sol o encandeava, fechou os olhos e adormeceu.
quarta-feira, 14 de março de 2012
O mar
Gaivotas
As nuvens
Brancas
Tu
Eu O som
O cheiro
Luz
Paz
Placidez
Tu outra vez
O teu vestido branco
Voas
Flutuas no plano do infinito
O momento
Uma imagem fixa
Presa na mente
Porquê a fixação?
Porquê Tu?
Porquê a luz? Porquê o mar?
Porquê o som?
Porquê as gaivotas?
Porquê o branco?
Talvez a saudade...
A saudade da tua paz
Da tua placidez
Não tua, minha
És mulher
Apologia feminina
És a fonte
O Sonho
Deusa divina
Perfeição sem falhas
És a imagem de um paraíso terreno, pelo qual não temeria morrer.
Amo-te.
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