sábado, 19 de novembro de 2011



 Cego, oval. Uma casa vermelha na pradaria. Um violino violento violeta veementemente violado. Corta-se a corda, queda total. Baque surdo e abafado. O chão emana luz e o reflexo de um candelabro numa sala barroca com um piano branco de aspecto clássico com pormenores dourados é bem visível. Da janela girassóis, Van Goghs e cavalos. Comboios em torno do sol, carris de cor vermelha. Almofadas de papel, músculos cansados. O embate da chuva no cimento, o fato molhado, a pasta, o homem, o guarda chuva. Tudo num cinzento macilento e lúgubre. A solidão de uma quinta-feira a tarde que podia ser um sábado, uma terça, uma sexta, um domingo ou uma quarta. Para onde vai? Ele próprio não sabe, mas move-se mercê da inércia e não tem vontade orgânica para parar o automatismo. É assim uma tarde em Estugarda, mas podia ser em qualquer outro lugar. Existem janelas verdes e olhos que espiam em qualquer nome de uma tabuleta. As maçãs que caem do céu são verdes também, amargas como a vida, perecíveis como a frágil realidade. A metafísica tornou-se ridícula, uma falsa questão. O quadro não está acabado, estou apenas a olhar para a tela, ainda não o comecei. Rega-se a lógica com um pouco de loucura, que mal fará? Rothko Rothko Rothko. De quanta escuridão dispõe este mundo? A luz bate-me de frente na cara, encadeia-me. Encontro-me num estado de sublimação tão iluminado que mal consigo ver. Um candeeiro de metal frio, flores para os pobres, um banco de jardim.

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