domingo, 8 de janeiro de 2012
A cobardia na estoicidade.
O medo da forma, mas não do conteúdo.
A consciência do fim,
A inocência do mesmo.
Um "Vê lá se és fulminado por um raio...".
Tom profético e irónico,
Revestido de ameaça.
Uma morte anunciada por um profeta de segunda.
O Pensador e o seu papel.
Um actor sem falas, um figurante.
Talvez um espectador,
Quiçá o encenador.
São perigosas estas comparações.
É suposto existir um poço deontológico.
Um poço entre deuses e homens,
Entre o perecível e o eterno.
Jornadas que nunca acabam,
Mas que nunca levam a lado algum.
O topo da montanha é a sua base.
Vivemos do ciclo.
Se olharmos para cima talvez vejamos os nossos pés,
Vemo-nos a olhar para cima,
Para os nossos pés,
Para cima.
Não sou a mais ínfima matéria.
Podia lançar-me com toda a inércia da minha massa.
Lançar-me contra a metafísica, que nada aconteceria.
A minha existência é ridícula, insignificante, sem sentido.
Sou fatalidade.
Sou o Homem.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Essas pernas de fada.
Essas pernas de pecado.
Essas pernas de infâmia.
A perdição, no seu essencial...
Perco-me em ti,
Perco-me nas tuas pernas,
Perco-me no teu sexo.
O fim último de tudo.
És o Sol quando nasce,
És o Sol que aquece,
És o Sol quando se põe,
E em toda a tua magnificência, explodes.
Explodes-me à queima-roupa,
Explodes-me com esse decote,
Explodes-me com... ai essas pernas...
Divindade em forma de Diabo.
Encontro-te à noite,
Encontro-te de dia;
Encontro-te à tarde.
E muito de mim em ti conheço.
Pulsões ocultas,
Pulsões eróticas,
Pulsões obsessivas.
E todo o sexo és tu, e toda tu és sexo.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Um copo com um tilintar gelado
Vai e vem, vai e vem...
E eu aqui sentado
De copo na mão.
Já fui eterno na efemeridade,
A efemeridade ridícula de tudo o que é.
A existência.
O todo.
Mas coloco-me agora no epicentro da mancha laranja,
Escrevo relembrando o passado,
Escrevo adivinhando o futuro,
Não sou nada.
O gelo derrete no copo.
O martini adoça-me a boca,
Adoça-me a vida.
O gelo derrete como eu.
O degelo perante o impotente contemplar
Dos olhos humanos,
Da centelha da vida.
O frio, a liquefação, o fim.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Tempo. A concepção de tempo. A concepção de tempo e as suas consequências. A concepção de tempo e as suas consequências, não as da concepção, mas as do tempo. Imagine-se um rio. Um rio largo e profundo que corre sempre para a foz, um rio cujo fluxo contínuo nada pode parar. Os tic's precedem os tac's que precedem os tic's que precedem os tac's, e é sempre assim, sempre foi e sempre será. As escolhas que fazemos, aquelas pelas quais optamos a montante alteram o que acontece a jusante, quando optamos no tic, optámos o tac. E aqui estamos nós no preciso momento do orto, na génese de tudo. Imaginem-se agora as probabilidades infinitas, as multiplicações intermináveis, as derivações. Imaginem-se todas as escolhas, todas as esquerdas e direitas, todos os sim e todos os não, imagine-se. Todas as esquerdas e direitas, todos os sim, todos os não, tudo o que é acção, tudo o que acontece. As possibilidades são infinitas e não podemos rever todas as escolhas, somos filhos do acaso - literal e metaforicamente. A mais pequena acção, o mais pequeno atraso altera tudo o que irá ser. O mundo é esta grande mesa de jogo onde toda a humanidade e cada um dos indivíduos que a compõe lançam os dados, e no fim, soma-se tudo. Volta-se a atirar os dados, volta-se a jogar. A borboleta que bate asas somos todos nós. As dimensões paralelas suficientes para comportar todas as possibilidades do que poderia ser o agora seriam intermináveis. Vivemos num universo de infinito em todas as escalas, de todas as perspectivas e para todas as direcções. Somos o eco do acaso produzido pelas escolhas. Escolhas que não podem ser retomadas, que não podem ser alteradas e que noutra dimensão fazem de cada ser um ente total ou parcialmente diferente. As possibilidades foram, são e serão infinitas.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
E que são essas coisas aí? São putas que dançam tangos. São entes que deambulam pela sala, seres que andam para cima e para baixo no bordel da vida. E não é isso que se quer? Boémia? Hedonismo? A negra verdade de perversão, a morte antropomórfica das putas. É isso que elas são, putas. Galdérias, meretrizes, pegas, rameiras. Mulheres. O circo de aberrações está na cidade e veio para ficar, os bilhetes são grátis e todos têm lugares na fila da frente. O espectáculo é pavoroso e horripilante, mas ninguém desvia o olhar por um segundo que seja. Gostamos destes rituais de morte, de toda esta obscuridade, do sangue a salpicar-nos as caras. Rimo-nos do cheiro a sangue, das nódoas de desgraça na indumentária alheia. E os passos de tango não cessam, a dança infernal de prazer hipnótico. E aqui estou em sentado na poltrona do bordel a ver as putas que dançam tangos e os seus movimentos provocatórios sem objectivo. E quem as pode julgar? É o seu trabalho, dançam, prostituem-se... Não é o que fazemos todos?
Um bom dia puritano de uma boca sorridente com um olhar caloroso e meigo, o olhar de um gato na floresta. Olhos rasgados, verdes. "Bom dia". Uma bela mulher vestida de branco. Nas suas costas, luz. Está sentada na beira do meu leito, parece tentar seduzir-me no meu momento mais vulnerável. As manhãs são calmas, dotadas de uma plenitude plácida. Da cama vejo o mar, vejo areia e as investidas constantes do mar, vejo-a a ela e o azul do oceano, a luz aquece-me e aquele ondular com cheiro a génese embala os meus ouvidos. Abro e fecho os olhos e ela sempre ali. Cabelo castanho, olhos verdes, trajada de luz. Entro e saio do sono e ela sempre ali. Profundidade mesmerizadora, semblante terno. E a vigília brinca comigo, domina-me em rasgos, adormeço, abro os olhos. E ela mais uma vez ali, a visão divina de perfeição. O mar entra-me no quarto com notas de sal, torna aquele momento puramente metafísico ainda mais sereno. Sinto-me num marasmo, todo o meu corpo coberto de torpor. Torpor puro, torpor de êxtase. Ela sorri, seduz-me a cada piscar de olhos. Nada acontece, fico ali apenas a ir e vir de um estado de aparente consciência - que de realidade tem pouco -, tomado por uma dormência de serenidade, luz e placidez. Toda a verdade existencial num delírio onírico tão verdadeiro como a vida, como o "Bom dia", como a manhã e as gaivotas, como a areia e o mar, como a luz e a perfeição. Não somos nada, não sou nada. Agora sou aquele momento, aquela placidez e luz, serenidade e perfeição. Sou aquele momento, nada mais. Placidez. Já referi a placidez? Já referi a perfeição e a luz? Sim, é isso, a placidez. Placidez, placidez, placidez...
domingo, 18 de dezembro de 2011
Dissertações. Dissertações infinitas sobre todos os tópicos - quase todos. O burburinho generalizado emana das portas, das janelas, ecoa nas ruas, alimenta nações. Toda a humanidade - sem excepção -, focou a sua existência para a reflectividade, atribuiu um "sentido" provisório à sua vida. Durante dias ninguém comeu, ninguém bebeu, ninguém foi trabalhar. Não morreram pessoas, não nasceram outras. A discussão era feita em todos os idiomas, era feita por sem-abrigo, por donas de casa, por políticos, filósofos, crianças, idosos, economistas, escritores, pessoas... Teses sobre os grandes males do mundo, sobre as problemáticas mais prementes. Discussões científicas, práticas, metafísicas. Atacavam-se problemas de todas as frentes, a discussão era o que unia o povo. Foram escritos biliões de ensaios por biliões de pessoas, debateram-se, ajustaram-se reescreveram-se. O mundo tinha parado, mas não de pensar. Pensar era agora uma necessidade, uma necessidade maior que comer, uma necessidade maior que beber. Gentes conversavam pelas ruas, em cafés, nas casas. Foi organizado um concílio com os maiores pensadores vivos daquele tempo - ter-se-iam convocado também os mortos, mas devido à lógica impossibilidade, não aconteceu. Os pensadores dedicaram-se ao exercício que melhor desenvolviam, fizeram-no de maneira ininterrupta, pensaram. Dialectizaram horas, dias, anos a fio. Toda esta imensidão de gente, de gentes, de povos. Todas as mentes capazes do planeta nada mais fizeram que pensar.
Não se chegou a conclusão alguma.
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